A partir de 1º de maio de 2026, a capital chinesa passará a proibir a venda, aluguel e transporte de drones de consumo dentro de seus limites, com restrições que abrangem 17 categorias de componentes, como estruturas e sistemas de controle de voo. Toda a cidade foi designada como espaço aéreo controlado, e qualquer voo externo não autorizado sujeita o piloto à apreensão do equipamento e multa.
O Comitê Permanente do Congresso Popular Municipal de Pequim aprovou o regulamento em 28 de março de 2026, com vigência a partir de 1º de maio. Quem já possui drones tem até 30 de abril para registrá-los na polícia e, mesmo assim, nenhum endereço residencial pode guardar mais de três unidades. A exceção fica por conta de operações de pesquisa, educação e testes industriais, em zonas de voo dedicadas.
A posição da DJI nesse quadro
A DJI, sediada em Shenzhen, é a empresa que transformou o drone de consumo em produto de prateleira global, adotado por cinegrafistas, agentes imobiliários, agricultores e equipes de emergência. Pequim não cita a DJI pelo nome na proibição, mas a restrição ampla ao ecossistema de drones de consumo recai com mais peso sobre quem domina esse mercado.
Revendedores da DJI ouvidos pela imprensa de Hong Kong relataram queda de cerca de 50% nas vendas corporativas nos dois meses anteriores à entrada em vigor das novas regras, com plataformas de usados registrando uma enxurrada de equipamentos descartados antes do prazo. Esse movimento já é suficiente para indicar que a confiança do consumidor foi abalada antes mesmo da lei vigorar: quando compradores antecipam aperto regulatório, adiam upgrades, seguram dinheiro e postergam compras, o que corrói gradualmente qualquer marca de eletrônico
O outro problema: os Estados Unidos
Pequim, porém, não é o único front. A DJI travar uma disputa com a Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC) e informou a um tribunal federal americano que as restrições da agência podem bloquear até 25 novos lançamentos de drones e câmeras em 2026, com perdas estimadas acima de US$ 1,5 bilhão. Desse total, cerca de US$ 700 milhões estão vinculados a autorizações atrasadas ou negadas para produtos já planejados, e outros US$ 860 milhões correspondem a lançamentos futuros que podem não chegar às prateleiras americanas.
No mercado dos EUA, os modelos já aprovados, como o Mini 4 Pro, o Air 3S e o Avata 2, seguem disponíveis para compra. A incerteza sobre lançamentos futuros gerou descontos agressivos no estoque atual, criando uma dinâmica incomum: a regulação está tornando os próximos produtos mais difíceis de chegar, enquanto os modelos presentes ficam mais baratos do que nunca.
Quando Pequim adota restrições duras, outras cidades de peso como Xangai, Guangzhou e Shenzhen tendem a considerar estruturas semelhantes em torno de zonas de segurança, hubs logísticos e distritos urbanos densos. Isso cria uma contradição com a própria política do governo central chinês, que desde 2023 promove a chamada “economia de baixa altitude”, um plano nacional para drones logísticos, mapeamento aéreo, inspeções industriais e mobilidade urbana. Pilotos de fim de semana, lembrem-se, viram com frequência os operadores profissionais e compradores corporativos de amanhã: restringir o acesso ao produto de consumo pode secar o viveiro de onde saem os usuários avançados.
O fato de a empresa que mais se associa ao drone de consumo no mundo enfrentar ao mesmo tempo uma proibição no mercado onde nasceu e um bloqueio regulatório no maior mercado externo que opera diz bastante sobre o estágio em que a tecnologia se encontra: drones pararam de ser vistos só como gadgets e passaram a ser tratados como tecnologia estratégica, com todas as implicações políticas que isso carrega.



