A disseminação de notícias fraudulentas deixou de ser uma ação desordenada para se transformar em uma verdadeira indústria estruturada, impulsionada por objetivos políticos e ganhos financeiros. No centro dessa engrenagem contemporânea, os vídeos curtos se consolidaram como a ferramenta preferida para capturar o público e disseminar narrativas enganosas em períodos eleitorais, beneficiando-se da própria arquitetura de distribuição das plataformas digitais.
O fluxo da mentira: dos grupos fechados ao consumo de massa
Um levantamento detalhado conduzido pelo NetLab, laboratório de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mapeou como a desinformação percorre um circuito multiplataforma até alcançar a grande massa de eleitores. Ao examinar 115,3 mil publicações em grupos abertos de WhatsApp e outras 180,9 mil no Telegram durante o primeiro turno das eleições de 2022, pesquisadores identificaram uma rota estratégica dividida em três fases essenciais:
- Fase de teste em ambientes restritos: o WhatsApp e o Telegram servem como laboratórios. Em pequenos canais e círculos de militância, criadores de conteúdo testam quais discursos provocam maior reação, aproveitando os laços de confiança familiar e de amizade para medir o apelo da mensagem.
- Migração e amplificação nas redes abertas: quando o conteúdo demonstra tração, ele é exportado para plataformas como Instagram, TikTok, Kwai e Facebook. Nesse estágio, o alcance é multiplicado por algoritmos de recomendação, redes de influenciadores e anúncios impulsionados.
- Apogeu audiovisual: transformado em formatos dinâmicos de vídeo, o boato atinge sua máxima capacidade de viralização, alcançando validação plena caso chegue aos noticiários tradicionais ou programas de televisão.
Essa dinâmica é impulsionada pela economia da atenção. Para reter o usuário pelo maior tempo possível e faturar mais com anúncios e captação de dados, os algoritmos frequentemente priorizam postagens polarizadoras, agressivas ou extremas, sacrificando a veracidade em prol do engajamento.
A explosão das deepfakes e os perigos dos conteúdos manipulados
O avanço das ferramentas de inteligência artificial generativa adicionou um elemento crítico a esse cenário. Dados da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) revelam que o Brasil representou 39% de todas as ocorrências de deepfakes registradas na América Latina em 2025, acumulando uma alta de 126% em fraudes envolvendo voz, fisionomia e identidades adulteradas.
Ao lado de montagens ultra-realistas, ganham força também os chamados shallowfakes — adulterações mais rústicas e de menor complexidade técnica. Apesar de simples, essas manipulações enganam com facilidade usuários desatentos e inundam redes com publicidades fraudulentas. Especialistas apontam que selos e marcas d’água são insuficientes sem um esforço institucional de transparência, demandando que as Big Techs forneçam repositórios públicos auditáveis para monitorar a publicidade direcionada.
Como se proteger das armadilhas informacionais
Enquanto o debate sobre a regulamentação das gigantes da tecnologia avança, os cidadãos precisam adotar posturas de cautela no ambiente virtual, especialmente durante campanhas políticas:
- Atenção ao viés de confirmação: desconfie de publicações que apenas validam suas convicções políticas e despertam sentimentos intensos de revolta ou entusiasmo.
- Cuidado com promessas milagrosas: mensagens promovendo descontos irreais, programas para resgate de fundos esquecidos ou enriquecimento rápido são praticamente sinônimo de fraude.
- Verificação antes do compartilhamento: antes de repassar correntes em aplicativos de mensagens, utilize os serviços de agências profissionais de checagem.
- Exigência de transparência: encare o consumo digital como um serviço que deve garantir segurança e prestação de contas, cobrando ambientes digitais íntegros.
Adotar o pensamento crítico antes do clique é o passo inicial para enfraquecer o modelo de negócios que lucra com a manipulação da opinião pública.



